Recife, 09 de Fevereiro de 2010



postado em | 02.06.2008
Os espelhos de Olívia Mindelo


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Espelhos meus, primeira exposição do Amplificadores 2008, do Murillo La Greca, abre amanhã (03/06), a partir das 19h, entre temáticas femininas e a apropriação da abordagem fotográfica. Nesse universo, Bruno Vilela (PE) e Alexandre Belém (PE) tratam de desconstruir mitos e padrões enquanto Adelaide Ivánova (PE/SP) e Lali Masriera (Espanha) dedicam-se à revelação de mulheres possíveis. Esta última, trazida a Recife pela Embaixada Espanhola, ministra o workshop "O olhar livre: composição visual, fotografia e Internet", de quarta-feira (04/06) a domingo (08/06), no próprio museu. A concepção da mostra é da setorista de artes plásticas do Jornal do Commércio Olívia Mindêlo, que antecipa aspectos de seus caminhos curatoriais na entrevista realizada por e-mail e aqui transcrita.

O que a motivou a propor essa sua primeira idéia de curadoria?
Olívia Mindêlo - Foi a idéia de uma matéria especial, sobre o lugar da fotografia na arte, para além de seu caráter documental, no caso do fotojornalismo, por exemplo, e para além de um suporte coadjuvante na arte contemporânea. Queria mostrar como alguns artistas conseguem libertar a câmera, valendo-se de uma visão mais poética. Digo que é possível rever o mundo através da fotografia, mesmo a banal, e é sobre isso que a exposição fala um pouco também. Por isso, a ênfase na foto, que também tem poucos espaços mais voltados para uma reflexão em torno dela, como linguagem mesmo, no Recife. A idéia da curadoria veio de repente, quando recebi um e-mail do Museu Murillo La Greca de que havia prorrogado as inscrições do Projeto Amplificadores 2008, aí aproveitei o que tinha pensado para a matéria, convidando artistas cujos traalhos de alguma forma dialogavam entre si. Quem trabalha cobrindo arte acaba aprendendo um pouco sobre esse ofício de curadoria, inclusive fiz uma reportagem especial há uns dois anos sobre o papel do curador na arte contemporânea. Aí, misturei minhas bagagens e fiz.

Que especificidades de pensamento acerca das temáticas femininas você percebe no nosso tempo?
OM - Acredito que são múltiplas, por isso também escolhi o título "Espelhos meus", atualizando o conto de fadas. O mundo feminino não tem mais "uma verdade"; ao contrário, mostra-se cada vez mais complexo e multifacetado, porque também se aproxima do masculino e se reflete nele - uma troca mais intensa de papéis, sem maniqueísmos. A mostra, no entanto, não tem um caráter feminista, ela apresenta, a partir de quatro olhares diferentes e subjetivos, um pouco do que é essa mulher hoje, em diferentes poéticas. Acredito que a exposição procura desmistificar o caráter sublime do feminino, tão caro à história da arte. O trabalho de Bruno Vilela, mesmo, é o mais direto nesse sentido, porque assassina os ícones Chapeuzinho Vermelho, Alice e Branca de Neve. A própria Adelaide Ivánova ao mesmo tempo em que bebe do mundo fashion, satiriza também esse universo consumista e pop. Há uma necessidade hoje, penso, de mostrar que mulheres são muito mais do que princesas ou vítimas do consumo.

A partir da idéia de abordagem do universo feminino, como foram escolhidos os nomes de artistas participantes? Como cada um dos quatro contribui para a sua formulação temática? Todos eles estarão presentes na abertura?
OM - Eu não pensei num tema e depois escolhi os artistas. O tema do universo feminino veio com o processo. Não acredito em curadorias pré-determinadas em assuntos óbvios. Acho que enfraquece a exposição e o olhar do espectador. Acredito que quando uma curadoria parte de alguma verdade fechada, se limita. As minhas escolhas vieram a partir do contato com trabalhos prontos de artistas com os quais havia cruzado em meu ofício e em minha vida pessoal (como é o caso de Ivi [Adelaide Ivánova]). Calhou de eles estarem falando uma "mesma língua". Aí, como todo trabalho de edição, tive que ser mais coerente e apostar numa linha de pensamento, mas há mais do que só o universo feminino, há uma necessidade de se refletir sobre o papel da imagem hoje também. Todos os artistas contribuem para isso e estarão presentes na abertura, os quatro. Lali Masriera, de Barcelona, por exemplo, também veio à mostra, através da parceria com a Embaixada da Espanha no Brasil. Ela é uma prova de que a digitalização da fotografia proporcionou muito mais coisas que a mudança técnica, mas uma amplição do compartilhamento de imagens no mundo, principalmente através do Flickr (rede mundial de fotógrafos).

Que outros artistas também poderiam estar na exposição, sem restrição temporal nem espacial?
OM - Acho que muitos. No Flickr mesmo, colocaria uma infinidade, como o trabalho de uma menina da Espanha também, acho, que assina como "vorfas". Ela é fantástica. Daqui, acredito que Bárbara Wagner entraria com aquela série de Brasília Teimosa, se fosse inédita... Mas não saí cortando nomes, saí somando e tive que parar em quatro, porque acho que seja um número suficiente para o tamanho do Murillo, em se tratando de fotografia em grandes dimensões, como algumas são.

Como foi a experiência de transpor um ponto de vista do texto para a disposição espacial de obras? Como tem sido sua aproximação com o jovem crítico (quem é mesmo?) convidado pelo museu para escrever o texto sobre sua curadoria?
OM - Quando se trata de artes visuais, não há como separar texto de disposição espacial das obras. Tudo tem que meio que fluir ao mesmo tempo. No jornalismo, é assim, porque ajudo a conceber a diagramação de uma página. E agora também foi. Quando enviei o projeto, já mandei com a estrutura e os tamanhos das imagens mais ou menos definidos, para cada parede. Meu hobby é decoração, cenografia, então encaixou no que se pedia de mim como curadora, que tem que ser de tudo um pouco. Quanto ao jovem crítico, pouco tenho tido contato. Kelly (não sei o sobrenome) conversou comigo uma vez, rapidamente. Espero que também tenha as próprias impressões pessoais, como todo crítico deve tecer. Penso que seja muito boa essa interação e oportunidade entre uma jovem curadora e uma jovem crítica.

Você acha que a curadoria é uma extensão da atividade do jornalismo e da crítica de arte?
OM - Não diria extensão. Todas as duas áreas tangenciam um pouco a curadoria, porque o jornalista (de cultura) e o crítico de arte, de alguma forma, "recortam realidades". Mas nem todo curador partiu da crítica ou do jornalismo, são atividades paralelas que podem vir a se cruzar e não se anulam. Talvez a crítica seja um percurso mais próximo de quem quer ser curador. Para mim, por exemplo, me sinto também repórter de artes visuais. Mas ao invés de papel, agora também tenho paredes.


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