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Recife, 09 de Fevereiro de 2010 
postado em | 27.05.2008
TV Primavera > Raul Luna > Karaokê Inferno

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O coletivo TV Primavera lançou uma compilação de vídeos em DVD, o Karaokê Inferno, a venda no Café Castigliani, na Fundaj Derby (Recife – PE) ou através do site www.tvprimavera.com. Após assistir aos cerca de 40 minutos de experimentos que o grupo realizou entre 2006 e 2008, 2ptos trocou e-mails com o integrante Raul Luna sobre estranhezas, anonimato, políticas cotidianas e possíveis rumos para a poética TVPRMVR.
A TV Primavera é um coletivo de indivíduos? Como se negociam os rumos da poética de vocês entre o grupo?
O TV Primavera é formado por Édipo, Gabriela da Paz, JM Ferraz, Eduarda Ribeiro, Alberto Lins, Marcela Vieira, eu, Lu Freire e Felipe Querette. Dentro do grupo, agimos em nome do coletivo, nao existe assinatura individual de vídeos e trabalhos. Tudo é assinado como TVPRMVR, salvo raríssimas exceções das quais nem me lembro. Acho que isso facilita muito a questão de "homogeneizar o rumo da poética", principalmente quando você trabalha com várias pessoas de instinto diferentes. Um trabalho feito por Rodrigo dentro do coletivo é bem diferente do que ele faria se estivesse trabalhando solo, é regido sobre uma perspectiva diferente mesmo. No caso somos nós, os integrantes, que nos adaptamos à mentalidade e ao modus operandi TV Primavera, e não o contrário.
Qual o contexto de produção desses vídeos que integram a compilação? Quando e como foram feitos?
Karaokê Inferno foi um projeto que o TV lançou em web [www.tvprimavera.com] no dia 1 de março [de 2008]. Desde 2006, a gente vem usando a Internet como principal output pra nosso material de PDFs e vídeos. Parte dessas colagens veio do material produzido por todos para o Cinema Vertical (SPA das Artes 2006, Recife-PE), embora mais da metade do DVD consista de produções de 2007 e 2008. É tudo muito barulhento, caótico e com ausência quase que total de narrativa. Depois de lançados em forma online, decidimos compilar os broadcasts de Karaokê Inferno em DVD e hoje ele é o nosso primeiro lançamento nesse formato.
O que deflagra idéias para os trabalhos da TV Primavera? Quais as principais fontes e referências? Quero um brainstorm –tudo pode entrar- sem grandes edições nem censuras.
A gente tem trabalhando cada vez mais fora da plataforma vídeo, em design, DJing [discotecagem], performance, intervenção, etc. Projetos como Dinner Party Pool Music (DPPM), Cinema Vertical, Del Rey Cover, Political Swim, We Kill Djs... Tudo meio bizarro, outsider e fora da coisa puramente vídeo, mesmo sendo essa plataforma a força principal de produção do grupo. É difícil pra mim dizer o que gera idéias, mas acho que todos nós temos interesses por sarcasmo, por cores, loops, barulho, gifs, piadas internas, caos, ausência de narrativa... Lembro que a intenção de formar o grupo era a de explorar o que não tinha sido feito ainda nas nossas experiências audiovisuais anteriores. È meio frustrante ver tantas experiências interessantes e vivas lá fora como o Black Dice ou o Paper Rad [ver canal de Youtube], por exemplo, e ver um cenário completamente chato e metido a sério aqui. O TV passou a ser um instrumento pessoal de gerar estranheza e causar confusão, com algum desprendimento de vícios artísticos. Na DPPM mesmo, a grande vontade foi criar um ambiente de pessoas legais, algo meio Wham City "versão Derby". Conseguimos fazer oito festas lá no Castigliani [café da Fundaj Derby] e acho que deve rolar mais sempre que tivermos disposição pra arrumar as coisas e fazer novos sets pra discotecagens.
Você já vomitou vendo um de seus vídeos?
Hahahahahaha, não, mas espero que alguém tenha! Em relação a Atari Teenage Art ou Amin, é claramente intencional a escolha por padrões e barulho que gerar o sentimento de caos pop colorido "vomitável". Acharia ótimo alguém dizer que passou mal, porque ao menos assumiria que estava prestando atenção.
Vocês assumem posições políticas?
Posição política, no nosso caso, não tem a ver com levantar bandeira e "defender a classe", porque isso não nos interessa, mas sim defender posicionamentos claros do coletivo através de statements pra que a gente faz questão de soltar. Todo o trabalho do TV Primavera está baseado em ironias e é um diálogo bem próximo com uma realidade de humor diário que a gente vive. Não codificar isso num formato de aceitação intelectual é o maior desses statements. Sempre evitamos colocar firulas e bandeiras no discurso do TV, mesmo que a gente leve tudo isso super a sério. Acaba que pra mim é tudo bem pop-experimental, atrativo pro público, ao mesmo tempo também non-sense e agressivo. Sempre foi uma preocupação financiar nossos proprios DVDs e PDFs, pra garantir uma auto-suficiência comercial e conceitual do grupo. Queríamos lançar o nosso material sem precisar de ninguém pra isso.
A narrativa em grade do DVD sugere uma demanda pelo broadcasting dos vídeos. Qual o ambiente de exibição que vocês vislumbram para eles? Como acham que se comportariam dentro de uma galeria?
Karaokê Inferno foi exibido na íntegra em dois espaços físicos: no Batmacumba do ICA de Londres e no projeto Lado B, na parte externa do Museu Murillo La Greca, aqui em Recife. Esse segundo pude acompanhar presencialmente e vi funcionar super bem. Karaokê foi pensado para meios diversos de broadcasting mesmo, como web, DVD, salas de exibição, já que a edição dele vai em cima de uma idéia de programação, o lado "televisão" do TV Primavera. Acho que não é estranho ver Karaokê Inferno em formato loop em uma exposição padrão de galeria, e inclusive acho que, até agora, esse é o trabalho do TV Primavera que talvez mais possa se adequar a este formato.
O quão anônimos são e devem ser os trabalhos?
Acho que é importante sim. O anonimato tem preservado uma qualidade do trabalho do TV, que é sempre gerar algum tipo de desnorteamento pra quem está vendo. No nosso caso, vimos que quanto mais é estimulado o ineditismo e a curiosidade, mais você acaba por formar um público interessado em saber o que o coletivo faz. Sempre foi bem consciente, sabíamos que não conseguiríamos isso se estivéssemos dando mil indicações e bombardeando as pessoas com releases e justificativas pros nossos trabalhos.
O que o TV Primavera está pensando agora? Em que projetos tem investido?
Vamos lançar no próximo mês In the Woods, um trabalho em vídeo que fizemos com a Mooz para a loja Dona Santa/Santo Homem, bem bonito e experimental. O TV também está preparando um novo trabalho pro segundo semestre de 2008: O nome será Adios, Vodka e provavelmente também em formato DVD. Nesses últimos meses, eu tenho me dedicado a alguns projetos satélites do TV Primavera, como a MYPIANO, uma grife na qual eu desenho estampas, e o disco da Saltos Ornamentais, minha banda com Felipe Quérette (TV), Gus (Mooz) e André (Mariola). Tenho também dedicado tempo a escrever uma coluna semanal pra a revista online O Grito!. No segundo semestre, planejamos ampliar essa nova fase do TV Primavera fazendo alguma exposição pra mostrar os novos trabalhos num espaço físico pra um público maior.
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